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domingo, 30 de janeiro de 2011

A respiração da música



Esta é uma obra única, quer na forma, quer no conteúdo. Composta entre 1976 e 1979, por Simeon Ten Holt, compositor holandês (n. 1923), está inserida na terceira fase da sua obra: o regresso a uma tonalidade depois da morte da tonalidade. Composta para quatro pianos, insere-se na composição ou música aleatória, exigindo aos intérpretes uma participação activa no desenvolvimento da própria peça (podendo diversos "compassos" ser reformulados, fazendo que o final possa ser sempre diferente, bem como a duração da própria obra).
Na base desta proposta sonora está um conceito típico do compositor: as variadas e possíveis dimensões paralelas (drift parts, como o compositor as designa) que a composição pode propor, assumindo, aqui, a expressão "música viva" toda a sua plenitude; não é permitido, porém, a modificação estrutural da obra.
Como o próprio título refere, toda a composição assenta numa frase ou ideia melódica que se repete por toda a peça; sobre ela e com ela desenvolvem-se outras frases que vão incorporando a ideia original, numa sequenciação inteligentemente construída, permitindo uma dialéctica intrincada, mas nada cristalizada, da melodia original através da criatividade dos intérpretes. Tonalidade e atonalidade jogam entre si o destino final desta obra: os quatro pianos (embora o compositor refira um número indeterminado de intérpretes) quase que de forma orgânica impelem, oxigenam, alentam a melodia (os intérpretes pré-determinam a duração de alguns trechos), quer na sua intensidade tímbrica quer na sua textura harmónica. Não se inserindo nem no serialismo, nem no minimalismo puro, evoca-os de forma subtil.
Esta edição relativamente recente, da Et'Cetera, interpretada ao vivo, é um exemplo deste complexo corpo orgânico que se vai desenvolvendo por mais de uma hora, nunca inflectindo para a monotonia, cativando a audiência desde o primeiro momento, permitindo a todos sentir o que é, verdadeiramente, a respiração da música.

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