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domingo, 30 de janeiro de 2011

Das Buch der Klänge

Uma obra fenomenal, do compositor alemão Hans Otte, que nos permite encarar o som como uma ressonãncia do ser, eco distante de um Eu eternamente desconhecido. Composta para piano, tem nesta edição da NAXOS uma interpretação genial de Ralph van Raat. É daquelas obras imprescindíveis em qualquer discografia séria e de bom gosto. Ver mais em :

http://www.criticanarede.com/

Mai informação em http://www.naxos.com/

Música, silêncio e espaço

           


            Kancheli é um compositor da Geórgia (antiga república soviética). A sua obra divide-se, essencialmente, em duas fases: a primeira situa-se dentro do período da “Guerra-fria” (Bloco de Leste) e uma segunda fase pós queda muro de Berlim, em que o compositor passa a residir no Ocidente.
            As duas composições presentes no CD, “Valse Boston” (1996) e “Diplipito” (1997), situam-se nesta segunda fase. A principal diferença entre as duas fases situa-se, fundamentalmente, no tipo de composições por ele (Kancheli) propostas. Na primeira fase as suas obras eram essencialmente compostas para grandes orquestras, onde a dimensão plástica do som era levada ao extremo, quer pela sua intensidade, quer pela complexidade das texturas sonoras propostas. A Sinfonia nº 3, bem como a Sinfonia nº 5 (sobretudo esta última) são disso exemplo.
            “Diplipito” e “Valse Bóston” são composições realizadas para um número mais reduzido de intérpretes (fim do ciclo sinfónico), onde o aspecto harmónico assume uma maior preponderância do que o melódico (em termos de estrutura): estas duas peças são disso exemplo.
            “Diplipito” é uma peça composta para violoncelo, contra tenor e orquestra. Nos seus 28 minutos de duração desenvolve-se, sugestivamente, um intricado diálogo entre violoncelo e contra tenor, pautado por texturas sonoras extremamente ricas (por parte da orquestra), quer na sua complementaridade ao referido diálogo (violoncelo e contra tenor), quer como movimento autónomo desse mesmo diálogo. Os breves momentos melódicos surgem e desaparecem de forma constante, desenvolvendo-se no todo harmónico que sustenta a composição. De uma beleza poética inigualável, esta composição é sempre pautada pela tonalidade (como dominante), servindo os momentos atonais como momentos de transitórios, quase beethovenianos, ou melhor, schubertianos, da tensão para a calma. “Diplipito” é isso mesmo: a busca de uma sonoridade plástica capaz de produzir momentos de abandono e “relaxamento” a quem a escuta, apelando sempre ao nosso imaginário.
            “Valse Boston” situa-se na mesma fase da composição anterior. Peça composta para piano e orquestra (com a duração de 28 minutos), assume contornos quase pós-neo-clássicos. Toda a peça gira à volta de uma melodia extremamente simples (executada pela orquestra logo nos primeiros compassos) para piano e orquestra. Trata-se, neste caso, do diálogo clássico entre piano e orquestra (não existindo, porém, a prevalência de um sobre o outro). Mais uma vez os momentos de silêncio irrompem abruptamente por entre as texturas harmónicas, pautadas, aqui e ali, por frases melódicas executadas (sugeridas) no piano; o fascínio exercido por estas melodias é absolutamente surpreendente. Trata-se de uma composição onde, novamente, a tonalidade prevalece.
            Nestas duas peças Kancheli revela uma das mais importantes características da sua música: uma visão cosmopolita do mundo, pautada pela poeticidade da sua terra natal.

Geirr Tveitt: a música norueguesa reinventada

           


              Dizia um amigo meu que a música de Geirr Tveitt “tornava perfeitamente natural e aceitável a presença de Ogres e Trolls ao jantar!”. De facto, o mundo fantástico para o qual o compositor nos transporta, de forma aparentemente fácil e natural, revela uma faceta rara de encontrar na música actual: a simplicidade!
            Tveitt é um dos poucos compositores que não receia a dimensão telúrica, presente (de forma evidente) em toda a sua obra, nunca rejeitando a sua origem nórdica; ao contrário: potencia-a, elevando-a a níveis quase primitivos, conferindo-lhe simultaneamente uma outra dimensão, de carácter cosmopolita. O resultado é uma música que nos vicia pela sua pureza, pela sua plenitude natural: o compositor convida-nos para uma comunhão de intimidades.
            Nascido em Bergen (tal como Grieg), a vida de Geirr Tveitt (1908-1980), enquanto pianista e intérprete, foi pautada por inúmeras viagens, dando recitais e realizando concertos, por toda a parte (desde a Europa aos EUA). Enquanto compositor, era no Fjord de Hardanger que encontrava o retiro ideal, inspirador das suas composições (era lá que se encontrava a casa de família, bem como a que para si construiu e que em 1970 ardeu por completo, perdendo-se grande parte do espólio musical do compositor; esta situação teve um impacto profundamente negativo em Tveitt, fazendo com que não mais voltasse a compor.).
            Variations on a Folksong from Hardanger for two pianos and orchestra traduz, na sua essência, a preocupação de Tveitt em dignificar e preservar o legado da música tradicional norueguesa (tal como o tinha já feito E. Grieg). Como refere o título é uma peça composta para orquestra e dois pianos. Durante trinta minutos assiste-se a uma elaborada orquestração pautada pelo constante diálogo entre a orquestra e os dois pianos, com constante referência a temas folclóricos, resultado das pesquisas levadas a cabo por Tveitt sobre as tradições musicais de Hardanger. Toda a composição é uma enorme e fascinante melodia tradicional, do Fjord de Hardanger, transportando-nos instantaneamente para essa realidade tão imponentemente norueguesa: terra e mar (de notar o carácter intensamente sincopado das frases melódicas – facto que Grieg já tinha referido como uma das peculiaridades da música tradicional norueguesa).
            O Concerto para Piano, nº 4, Aurora Borealis, é considerado a sua obra mais proeminente, sintetizando um conteúdo mais tradicional como formalismo da dimensão cosmopolita[1]. A magia das Northern Lights está presente ao longo de todo o concerto, através das múltiplas e absolutamente deliciosas texturas sonoras que o compositor evoca… sugere! de forma quase impressionista.
            Os três andamentos são uma viagem (para a qual Tveitt nos convida) no tempo natural: o 1º andamento tem como nota do compositor The Northern Lights awakening above the autumn colours (primeiras impressões sobre a aurora boreal; diálogo complexo entre piano e orquestra); o 2º andamento Glittering in the winter heavens, and…(o fenómeno boreal em toda a sua plenitude e fascínio; a melodia torna-se modal em muitas passagens da orquestra e do piano); o 3º andamento (sendo este o meu preferido) Fading away in the bright night of spring (a nostalgia da despedida, evidenciada logo nos primeiros acordes, mas com promessa do reencontro, no ciclo do eterno retorno). É uma viagem absolutamente mágica, fascinante e, de certo modo, nostálgica, pelo céu e pelas estrelas do imaginário de Tveitt.
            Como refere D. Gallagher: Like Peer Gynt, far though Geirr Tveitt travels, he remains true to himself and his home.





Nota: Todas as citações e referências sonoras e/ou textuais têm como base a edição completa feita pela editora Naxos (HNH International Ltd.) das obras de Geirr Tveitt. Para mais informação sobre as obras em causa, consultar: www.naxos.com.  


[1] Veja-se também o Concerto nº5, Op.156, editado pela Naxos (Cat. N. 8.555077), especialmente o terceiro andamento.


A respiração da música



Esta é uma obra única, quer na forma, quer no conteúdo. Composta entre 1976 e 1979, por Simeon Ten Holt, compositor holandês (n. 1923), está inserida na terceira fase da sua obra: o regresso a uma tonalidade depois da morte da tonalidade. Composta para quatro pianos, insere-se na composição ou música aleatória, exigindo aos intérpretes uma participação activa no desenvolvimento da própria peça (podendo diversos "compassos" ser reformulados, fazendo que o final possa ser sempre diferente, bem como a duração da própria obra).
Na base desta proposta sonora está um conceito típico do compositor: as variadas e possíveis dimensões paralelas (drift parts, como o compositor as designa) que a composição pode propor, assumindo, aqui, a expressão "música viva" toda a sua plenitude; não é permitido, porém, a modificação estrutural da obra.
Como o próprio título refere, toda a composição assenta numa frase ou ideia melódica que se repete por toda a peça; sobre ela e com ela desenvolvem-se outras frases que vão incorporando a ideia original, numa sequenciação inteligentemente construída, permitindo uma dialéctica intrincada, mas nada cristalizada, da melodia original através da criatividade dos intérpretes. Tonalidade e atonalidade jogam entre si o destino final desta obra: os quatro pianos (embora o compositor refira um número indeterminado de intérpretes) quase que de forma orgânica impelem, oxigenam, alentam a melodia (os intérpretes pré-determinam a duração de alguns trechos), quer na sua intensidade tímbrica quer na sua textura harmónica. Não se inserindo nem no serialismo, nem no minimalismo puro, evoca-os de forma subtil.
Esta edição relativamente recente, da Et'Cetera, interpretada ao vivo, é um exemplo deste complexo corpo orgânico que se vai desenvolvendo por mais de uma hora, nunca inflectindo para a monotonia, cativando a audiência desde o primeiro momento, permitindo a todos sentir o que é, verdadeiramente, a respiração da música.

Música e Filosofia


A criação deste blog teve como principal objectivo incrementar a participação de todos aqueles que se interessam por filosofia e música, através da publicação de artigos, comentários, etc, sobre o tema acima designado.