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domingo, 30 de janeiro de 2011

Geirr Tveitt: a música norueguesa reinventada

           


              Dizia um amigo meu que a música de Geirr Tveitt “tornava perfeitamente natural e aceitável a presença de Ogres e Trolls ao jantar!”. De facto, o mundo fantástico para o qual o compositor nos transporta, de forma aparentemente fácil e natural, revela uma faceta rara de encontrar na música actual: a simplicidade!
            Tveitt é um dos poucos compositores que não receia a dimensão telúrica, presente (de forma evidente) em toda a sua obra, nunca rejeitando a sua origem nórdica; ao contrário: potencia-a, elevando-a a níveis quase primitivos, conferindo-lhe simultaneamente uma outra dimensão, de carácter cosmopolita. O resultado é uma música que nos vicia pela sua pureza, pela sua plenitude natural: o compositor convida-nos para uma comunhão de intimidades.
            Nascido em Bergen (tal como Grieg), a vida de Geirr Tveitt (1908-1980), enquanto pianista e intérprete, foi pautada por inúmeras viagens, dando recitais e realizando concertos, por toda a parte (desde a Europa aos EUA). Enquanto compositor, era no Fjord de Hardanger que encontrava o retiro ideal, inspirador das suas composições (era lá que se encontrava a casa de família, bem como a que para si construiu e que em 1970 ardeu por completo, perdendo-se grande parte do espólio musical do compositor; esta situação teve um impacto profundamente negativo em Tveitt, fazendo com que não mais voltasse a compor.).
            Variations on a Folksong from Hardanger for two pianos and orchestra traduz, na sua essência, a preocupação de Tveitt em dignificar e preservar o legado da música tradicional norueguesa (tal como o tinha já feito E. Grieg). Como refere o título é uma peça composta para orquestra e dois pianos. Durante trinta minutos assiste-se a uma elaborada orquestração pautada pelo constante diálogo entre a orquestra e os dois pianos, com constante referência a temas folclóricos, resultado das pesquisas levadas a cabo por Tveitt sobre as tradições musicais de Hardanger. Toda a composição é uma enorme e fascinante melodia tradicional, do Fjord de Hardanger, transportando-nos instantaneamente para essa realidade tão imponentemente norueguesa: terra e mar (de notar o carácter intensamente sincopado das frases melódicas – facto que Grieg já tinha referido como uma das peculiaridades da música tradicional norueguesa).
            O Concerto para Piano, nº 4, Aurora Borealis, é considerado a sua obra mais proeminente, sintetizando um conteúdo mais tradicional como formalismo da dimensão cosmopolita[1]. A magia das Northern Lights está presente ao longo de todo o concerto, através das múltiplas e absolutamente deliciosas texturas sonoras que o compositor evoca… sugere! de forma quase impressionista.
            Os três andamentos são uma viagem (para a qual Tveitt nos convida) no tempo natural: o 1º andamento tem como nota do compositor The Northern Lights awakening above the autumn colours (primeiras impressões sobre a aurora boreal; diálogo complexo entre piano e orquestra); o 2º andamento Glittering in the winter heavens, and…(o fenómeno boreal em toda a sua plenitude e fascínio; a melodia torna-se modal em muitas passagens da orquestra e do piano); o 3º andamento (sendo este o meu preferido) Fading away in the bright night of spring (a nostalgia da despedida, evidenciada logo nos primeiros acordes, mas com promessa do reencontro, no ciclo do eterno retorno). É uma viagem absolutamente mágica, fascinante e, de certo modo, nostálgica, pelo céu e pelas estrelas do imaginário de Tveitt.
            Como refere D. Gallagher: Like Peer Gynt, far though Geirr Tveitt travels, he remains true to himself and his home.





Nota: Todas as citações e referências sonoras e/ou textuais têm como base a edição completa feita pela editora Naxos (HNH International Ltd.) das obras de Geirr Tveitt. Para mais informação sobre as obras em causa, consultar: www.naxos.com.  


[1] Veja-se também o Concerto nº5, Op.156, editado pela Naxos (Cat. N. 8.555077), especialmente o terceiro andamento.


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